Brasil: o juro real segue alto e o crédito começa a falar
O Banco Central revisou o ritmo de corte da Selic. O spread do crédito privado começou a abrir. Os dois movimentos juntos contam uma história que vale acompanhar com atenção.

O Brasil entrou 2026 com expectativa de cortes graduais da Selic. O ritmo foi desacelerado: dois cortes de 0,25 ponto e revisão da trajetória futura. Não é movimento isolado — é parte do mesmo redesenho global de política monetária que descrevi no artigo anterior. Aqui em casa, o que pesa é o juro real, que segue em patamar internacionalmente elevado.
A inflação que voltou a subir
O IPCA voltou a apresentar altas — esperado, dado o cascateamento do preço de combustível para a cadeia de serviços. O que importa, no entanto, é o núcleo da inflação, que exclui justamente os itens mais voláteis. O núcleo mostra que a política monetária está fazendo efeito, mas em ritmo menor do que era esperado.
As projeções do Boletim Focus para o IPCA de 2026 estão entre 4,96% e 5,22%, consistentes com dólar próximo de R$ 5,90 a R$ 5,95 e barril de petróleo entre US$ 95 e US$ 100. É uma projeção de calibragem fina: pequenas mudanças no câmbio ou no petróleo deslocam o teto e o piso.
A curva DI já incorporou a mudança
A curva de juros nominais abriu de forma expressiva — sobretudo nos vértices longos, em 2027 e 2028. A curva de juros reais também abriu, mas menos. Isso significa que o mercado embute hoje, simultaneamente, mais inflação esperada e prêmio maior por correr o risco de prazo. Para quem tem alocação relevante em renda fixa pré ou IPCA+, a marcação a mercado dos últimos meses já refletiu esse rearranjo.
O crédito privado começa a dar sinais
Acompanho de perto o spread médio dos fundos de crédito privado sobre o CDI. Esse spread vem subindo — e quando ele sobe, a performance corrente daquela cesta de fundos é, por construção, pior. Não é detalhe técnico: é o mercado pedindo mais prêmio para tomar risco corporativo brasileiro.
O mesmo movimento aparece nos ativos de juro real, em sua maioria de infraestrutura e com isenção fiscal. E há indicador mais concreto: dezenove rebaixamentos de rating em empresas brasileiras nos últimos meses, e o default corporativo saindo de cerca de 2% para 2,7%. Não é crise sistêmica. Mas o ciclo deixou de ser benigno.
Onde mora a fragilidade
A alavancagem média das empresas do Ibovespa, medida por dívida líquida sobre EBITDA, está em torno de 1,4 a 1,5 — em linha com a média histórica de dez anos, e longe dos picos de 2,5 a 2,7 vistos em 2016 e 2017. O ponto de atenção é outro: a cobertura de juros caiu de cerca de sete vezes em 2021 e 2022 para 2,73 vezes hoje. As empresas ainda pagam juros com conforto, mas o colchão diminuiu de forma significativa.
Setorialmente, os mais pressionados são transporte e elétricas — segmentos que estruturalmente trabalham com alavancagem maior. Os mais resilientes são tecnologia, metais e bens de capital. Isso não é tese de compra ou venda — é mapa de quem sente mais a tração do custo de capital.
O que isso muda na alocação
O cenário de juro real alto por mais tempo está sustentando o atrativo da renda fixa brasileira em termos relativos. Mas o crédito privado pede mais seletividade do que pedia há doze meses. Títulos high grade voltaram a pagar prêmio. Mid grade exige análise mais cuidadosa de cobertura, refinanciamento e exposição setorial. Não há resposta única — há disciplina de processo.
Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.
Os números completos e os gráficos estão na análise em vídeo: Comentário mensal · maio de 2026.