Macroeconomia em Debate: Energia, Política Monetária e Tecnologia
Carta de junho de 2026: energia mais barata, Fed mais duro e um Brasil que corta com cautela

Carta de junho de 2026: energia mais barata, Fed mais duro e um Brasil que corta com cautela
Como a reabertura do Estreito de Ormuz, a estreia de Kevin Warsh e a decisão do Copom moldaram o mês, com base na leitura da Bahia Asset Management
Junho de 2026 concentrou, em poucas semanas, temas que costumam levar meses para se desenrolar. Escrevo esta análise para organizar o que aconteceu e o que ela sugere sobre postura de portfólio, apoiado na leitura de cenário da Bahia Asset Management. O objetivo aqui é informativo. Nada do que segue deve ser lido como recomendação personalizada de compra ou venda.
O choque de energia e a virada geopolítica
O mês começou com uma notícia que poucos previam. Estados Unidos e Irã firmaram um memorando de entendimento para a reabertura do Estreito de Ormuz. O efeito foi imediato sobre o preço da energia. O Brent, que havia chegado a picos de 110 a 115 dólares por barril entre março e maio, recuou para algo em torno de 70 a 75 e fechou junho com queda de cerca de 18%.
A descompressão não ficou restrita ao petróleo. O ouro caiu 12% no mês, o minério de ferro recuou 6%, a celulose cedeu 5% no mercado chinês futuro e o aço perdeu 3%. Nos grãos, o quadro foi misto, com milho em queda de 8%, soja em queda de 4% e açúcar em leve alta de 2%. Menos prêmio de risco geopolítico costuma ser bom para quem consome commodities e ruim para quem as produz, e o Brasil vive dos dois lados dessa conta.
A Bahia Asset Management chama a atenção para um ponto que vai além do preço do barril. A agenda da administração americana provavelmente ocasionará um rearranjo nas cadeias de suprimentos e até mesmo de alianças vigentes desde o pós-guerra. É uma mudança estrutural, e a reação de cada banco central e de cada governo é complexa e altamente incerta.
Warsh estreia duro no Fed
O primeiro FOMC sob a presidência de Kevin Warsh trouxe um tom firme. Warsh reiterou diversas vezes o compromisso de trazer a inflação de volta à meta. Ao mesmo tempo, sua comunicação não trouxe forward guidance. Ele evitou detalhar a função de reação do Fed e deixou em aberto quais combinações de atividade, mercado de trabalho e inflação seriam suficientes para justificar novos ajustes, inclusive uma eventual alta de juros.
Os dados americanos ajudaram a manter a dúvida no ar. Varejo e bens duráveis surpreenderam para cima, enquanto o payroll mais recente veio abaixo do esperado e ainda com revisões baixistas. O juro real de dois anos nos Estados Unidos subiu de forma pronunciada desde abril e alcançou níveis próximos de 2,0% a 2,5% entre junho e julho. Juro real mais alto lá fora tende a pressionar moedas e bolsas emergentes, e foi isso que vimos.
Europa e China em ritmos distintos
O Banco Central Europeu elevou sua taxa básica em 25 bps e também evitou sinalizar os próximos passos, sinal de que a persistência da inflação segue no centro das preocupações do continente. A China, por sua vez, cresce em ritmo moderado. As exportações de tecnologia e manufaturas mostraram força, mas a demanda doméstica continua fraca e o crédito avança pouco. É um motor que funciona pela metade.
Brasil: corte com viés conservador
No Brasil, o IPCA veio elevado e acima do esperado. Mesmo assim, o Copom cortou a Selic em 25 bps. A leitura fina importa mais que a manchete. Na prática, o comitê alongou o horizonte relevante para justificar a decisão, projetando inflação ainda elevada nesse período e acrescentando uma assimetria altista ao balanço de riscos.
O mercado percebeu o recado. As expectativas de inflação no Focus voltaram a subir nos horizontes mais longos, e as projeções para a Selic também avançaram. Isso sugere que passamos a precificar um ciclo de flexibilização mais limitado do que se imaginava. O Ibovespa registrou a quarta queda mensal consecutiva, com recuo de 1,0% em junho, pressionado pela rotação global para tecnologia e pela saída de 8,7 bilhões de reais de capital estrangeiro. As small caps sofreram mais, com queda de 3,3% no índice. Como referência de renda fixa pós-fixada, o CDI rendeu 1,12% no mês e 14,78% em doze meses.
Como isso apareceu nos fundos
Os números a seguir são históricos e não representam garantia de resultados futuros. Eles também não são líquidos de impostos nem, quando aplicável, de taxa de saída.
Segundo a Bahia Asset Management, os fundos macro sofreram com posições aplicadas em juros reais brasileiros, exatamente a classe que apanhou com o Copom mais conservador. Já as estratégias de ações se beneficiaram das incorporadoras de baixa renda. Tenda e Cury foram as maiores contribuições positivas, ajudadas por revisões de resultados e por um INCC abaixo do esperado. O hedge cambial também colaborou.
Nos veículos, o Bahia AM Valuation subiu 0,73% em junho e acumula 28,60% em doze meses, com diferencial de 4,71% frente ao Ibovespa no período. O Long Biased avançou 1,08% no mês e 19,99% em doze meses. O Maraú rendeu 0,39% no mês e 11,01% em doze meses. O Mutá recuou 0,16% em junho e soma 9,46% em doze meses. O Una EH, subclasse condominial, subiu 3,53% em junho e 9,40% no ano. Vale destacar que Mutá e Una EH são destinados exclusivamente a investidores qualificados, e nenhum desses fundos conta com garantia do gestor, do administrador ou do Fundo Garantidor de Créditos.
O que observo daqui para frente
O mês reforça uma ideia simples de disciplina. Quando energia mais barata, juros externos mais altos e um Copom cauteloso convivem no mesmo cenário, o resultado é dispersão entre classes de ativos, não uma direção única. Para o investidor, o caminho prático é revisar se a alocação atual corresponde ao seu horizonte e à sua tolerância a oscilações, em vez de reagir a um único mês de retorno. A adequação de qualquer fundo citado depende do perfil de cada pessoa e merece ser avaliada individualmente. Se você quiser revisitar sua carteira à luz desse cenário, estou à disposição para conversar sobre o que faz sentido no seu caso.
Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.