Relatório Mensal da Dívida Pública - IMPORTANTE
Dominância fiscal: por que só o governo pode quebrar o ciclo entre dívida, câmbio e inflação

Dominância fiscal: por que só o governo pode quebrar o ciclo entre dívida, câmbio e inflação
Quando o desequilíbrio nas contas públicas se aprofunda, a política monetária perde força. Entenda o mecanismo que liga juros, dívida e risco soberano.
Há um conceito que volta ao centro do debate econômico sempre que as contas públicas se deterioram: a dominância fiscal. É um nome técnico para um problema concreto. Quando o desequilíbrio fiscal se aprofunda a ponto de tornar a política monetária ineficaz, subir os juros deixa de ser remédio e pode virar parte da doença. Quero explicar esse mecanismo com calma, porque ele ajuda a entender o pano de fundo de muitas decisões de alocação.
Vou usar dados do Relatório Mensal da Dívida Pública do Tesouro Nacional. Os números servem para ilustrar a lógica, não para projetar qualquer cenário.
A composição da dívida importa mais do que parece
A Dívida Pública Federal somava cerca de R$ 8,7 trilhões em abril de 2026. O ponto sensível não é só o tamanho, é a composição. Aproximadamente R$ 4,1 trilhões dessa dívida estão atrelados à SELIC por meio das LFTs (os títulos conhecidos como Tesouro Selic). Isso equivale a algo perto de 48% do total.
O que essa estrutura significa na prática? Que quase metade da dívida tem custo diretamente sensível à taxa básica de juros. Quando a SELIC sobe, o custo dessa parcela sobe junto, quase em tempo real. É uma característica diferente de uma dívida prefixada, em que a taxa fica travada no momento da emissão.
A conta de cada ponto percentual
Fazendo a conta com os dados de abril de 2026, cada 1 ponto percentual de alta na SELIC representa um custo anual adicional de aproximadamente R$ 41 bilhões apenas sobre o estoque de LFTs. É um cálculo ilustrativo, mas mostra a ordem de grandeza do que está em jogo.
Esse custo extra pressiona o déficit nominal. E é aqui que o ciclo começa a se fechar. Um déficit nominal que cresce deteriora a percepção de risco soberano. O mercado passa a exigir prêmios maiores para financiar a dívida. Parte do capital procura destinos mais seguros, o que tende a pressionar o câmbio.
O paradoxo do Banco Central
Um câmbio mais depreciado encarece os produtos importados e alimenta a inflação pelo lado da oferta. Ao mesmo tempo, o gasto público sustenta a demanda na economia, o que pressiona os preços pelo lado da demanda. São duas fontes de inflação atuando ao mesmo tempo, com origens diferentes.
O Banco Central, então, fica diante de um paradoxo. Para conter a inflação de demanda, o instrumento natural é subir os juros. Mas, com quase metade da dívida atrelada à SELIC, juros mais altos pioram o déficit, reforçam a percepção de risco e podem depreciar ainda mais o câmbio, realimentando a inflação de oferta. É nesse ponto que se diz que a política monetária perde eficácia. Quando isso acontece, o Banco Central fica de mãos atadas, e o que fizer contra a inflação pode acabar agravando o quadro.
E cortar os juros resolveria?
A tentação seria imaginar que o caminho oposto, um corte abrupto de juros sem ajuste das contas, resolveria o problema. A estrutura da dívida mostra por que isso é arriscado.
Se a confiança nos títulos públicos estiver comprometida, detentores de LFTs poderiam buscar resgatar volumes muito superiores ao caixa disponível. A Reserva de Liquidez do Tesouro Nacional estava em R$ 1,069 trilhão. Diante de R$ 4,1 trilhões em LFTs, essa reserva cobre algo em torno de 26% do estoque. Existem R$ 4,1 trilhões em LFTs e cerca de R$ 1,069 trilhão em caixa para honrar resgates. A margem é estreita. Por isso, cortar juros sem antes restaurar a confiança fiscal também não interrompe o ciclo.
Por que a saída é fiscal
A dominância recebe esse nome justamente porque a chave está no lado fiscal. Só o governo, agindo sobre as próprias contas, é capaz de quebrar o círculo. Corte de gastos e geração de superávit primário reduzem o risco percebido. Com menos risco, os prêmios exigidos pelo mercado caem, o câmbio tende a se estabilizar e a política monetária recupera sua eficácia.
O mesmo mecanismo que corrói as contas quando os juros sobem pode ajudar a reconstruí-las quando o ajuste vier. A cada 1 ponto percentual de corte na SELIC, são aproximadamente R$ 41 bilhões a menos pagos por ano sobre as LFTs. A matemática funciona nas duas direções. Mas o gatilho que permite cortar juros com segurança é a credibilidade fiscal, não o inverso.
Conclusão prática para o investidor
Para quem investe, o valor de entender esse mecanismo não está em acertar o timing de nenhum movimento. Está em ler o ambiente com mais critério. Acompanhar a trajetória do déficit primário, a composição da dívida e os sinais de ajuste fiscal ajuda a contextualizar o comportamento dos juros, do câmbio e dos prêmios de risco ao longo do tempo.
Nada disso substitui uma conversa sobre o seu perfil e seus objetivos. A adequação de qualquer classe de ativo, inclusive títulos atrelados à SELIC, depende dessa análise individual. O que procuro deixar registrado aqui é a lógica: trata-se de um problema de natureza fiscal, e a política monetária pode ajudar, mas não o resolve sozinha. É o governo quem está com a faca e o queijo na mão.
Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.