Repensando o ativo sem risco (IPCA x CDI)

O CDI não é o seu ativo livre de risco

24 de junho de 20265 min de leituraGustavo Trotta
Repensando o ativo sem risco (IPCA x CDI)

O CDI não é o seu ativo livre de risco

Por que segurança nominal e segurança real são coisas diferentes quando o objetivo está lá na frente

Mark Twain resumiu bem um problema que vejo com frequência no escritório: "O que te mata não é o que você não sabe, mas sim aquilo sobre o qual tem certeza, mas está errado." No mercado brasileiro, poucas certezas são tão difundidas quanto esta: o CDI é o ativo livre de risco. Eu discordo dessa generalização, e quero explicar por quê.

O que estamos chamando de risco

Na cabeça da maioria das pessoas, risco é ver o saldo cair no extrato. É a oscilação mensal, o vermelho na tela. Por essa lógica, o CDI parece imbatível, já que entrega segurança nominal quase perfeita. O número sempre sobe.

Mas existe outra definição de risco, e ela é mais útil para quem investe pensando na vida real. Risco é a probabilidade de você não atingir seus objetivos financeiros. Não é perder dinheiro hoje. É não ter dinheiro quando você precisar.

Quando troco a régua, a conclusão muda. O ativo verdadeiramente seguro deixa de ser o que não oscila e passa a ser o que protege o poder de compra até o momento em que o recurso será usado.

Segurança nominal não é segurança real

Aqui está o ponto que costuma incomodar. O CDI protege o valor nominal do seu dinheiro, mas não garante a proteção do que esse dinheiro compra ao longo do tempo. São coisas distintas.

Os dados brasileiros mostram isso de forma desconfortável. Entre 2019 e 2023, o retorno real do CDI ficou próximo de zero ou negativo na maior parte do período, conforme dados da Anbima. Em 2020 e 2021, foi negativo. Ou seja, quem estava "seguro" no CDI perdeu poder de compra justamente quando a inflação acelerou.

Se eu coloco em um gráfico com base 100 em janeiro de 2019, índices de títulos indexados à inflação como IMAB5, IMAB5+ e IDKA5 alcançaram valores próximos de 120 a 130 em meados de 2020 e 2021, enquanto o CDI seguia abaixo de 100. O fenômeno não é exclusivamente nosso. As T-bills americanas também apresentaram retorno real negativo em diversas janelas, o que reforça que isso é estrutural, e não um acidente local. Vale o registro de compliance: rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura, e nenhum desses índices deve ser lido como indicação de compra.

O ativo livre de risco é individual

Essa é a parte que mais gosto de discutir com clientes. Não existe um ativo livre de risco universal. O que existe é o ativo certo para cada objetivo.

Pense em três investidores. Um aposentado que vive da renda da carteira. Um jovem profissional poupando para daqui a três décadas. Um fundo de pensão com passivo atuarial rodando a IPCA + 6%. Eles não compartilham o mesmo ativo seguro, porque seus prazos e compromissos são diferentes. Para o fundo de pensão desse exemplo específico, o ativo que neutraliza o risco é aquele que acompanha o próprio passivo. Para o jovem que projeta uma renda futura, é o título cujo vencimento conversa com o ano em que ele vai precisar do dinheiro.

É por isso que títulos indexados à inflação, com vencimentos alinhados aos objetivos de cada um, tendem a cumprir melhor o papel de ativo livre de risco para quem poupa no longo prazo. Quando o critério é proteger o consumo futuro, esses papéis longos carregam menos risco de reinvestimento do que aplicações de curtíssimo prazo, que precisam ser renovadas a cada vencimento sob taxas que ninguém conhece de antemão.

Onde o CDI continua fazendo sentido

Nada disso significa abandonar o CDI. Significa colocá-lo no lugar certo. Ele segue sendo uma escolha clara para liquidez imediata, para horizontes muito curtos e para a gestão de caixa do dia a dia. O ponto não é descartá-lo. É delimitar onde ele funciona bem.

O erro está na transposição automática. A associação entre segurança e títulos de curto prazo é uma simplificação que não resiste nem aos dados, nem à teoria de finanças moderna. O curto prazo tende a proteger o presente. O longo prazo, quando bem estruturado, protege o futuro.

Investir a partir dos objetivos

A abordagem que aplico parte do Goal-Based Investing, a ideia de casar cada ativo com um objetivo concreto de vida. Aposentadoria, educação dos filhos, uma renda futura. Em vez de perguntar "qual o ativo mais seguro do mercado", a pergunta passa a ser "qual ativo protege este objetivo, neste prazo".

Um exercício ilustrativo ajuda a fixar. Imagine reservar hoje recursos para pagar uma faculdade daqui a cinco anos. Se eu deixo esse valor girando no CDI, fico exposto à possibilidade de que a mensalidade suba mais do que o rendimento. Se uso um título atrelado à inflação com vencimento próximo da data da matrícula, eu travo o poder de compra daquele objetivo. Esse raciocínio é didático e não representa projeção nem promessa de resultado.

Conclusão prática

Na prática, sugiro inverter a ordem das perguntas. Antes de escolher o produto, defina o objetivo e o prazo. Separe o que é caixa de curto prazo, onde o CDI brilha, do que é poupança de longo prazo, onde a proteção contra a inflação costuma importar mais. Lembre que qualquer produto citado aqui tem caráter educativo, e que a adequação depende sempre do seu perfil e dos seus objetivos. O CDI parece seguro até o momento em que o dinheiro é necessário. Vale conversar com seu assessor para verificar se a sua definição de "seguro" combina com a vida que você está financiando.

Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.