Como mudar o Brasil e aumentar a produtividade!
Os dez mandamentos da produtividade brasileira

Os dez mandamentos da produtividade brasileira
O diagnóstico sobre o que trava o crescimento do país já é amplamente conhecido. O desafio está na sequência e na coragem de executar.
Não falta esforço ao Brasil. Falta um sistema que transforme esforço em resultado. Essa é, na minha leitura, a melhor síntese do problema que o país carrega há décadas. O diagnóstico sobre os bloqueios da nossa produtividade é hoje relativamente consensual entre economistas, e um estudo recente da Kinea ajuda a organizá-lo de forma didática, agrupando a agenda de reformas em dez mandamentos que, se executados em sequência, têm capacidade de elevar o crescimento potencial de maneira estrutural.
Vale lembrar de onde viemos. O Brasil cresceu intensamente entre 1950 e 1980 apoiado na urbanização, na industrialização protegida e na acumulação de capital. Esse ciclo se esgotou sem que os fundamentos de uma economia produtiva moderna fossem plenamente construídos. O resultado é um país que, como descreve a análise da Kinea, tributa mal, educa mal, investe pouco em infraestrutura, protege setores por tempo demais, subsidia sem avaliar, pune empresas que crescem, encarece o capital e convive com insegurança jurídica.
Tributação e competição
Os primeiros mandamentos atacam a base. Simplificar a tributação é o ponto de partida, e a Reforma Tributária do consumo é, hoje, a maior reforma de produtividade em curso. Ela substitui cinco tributos por um IVA dual, com a CBS na esfera federal e o IBS na subnacional. Seu maior risco não está no desenho, e sim na captura por exceções que elevem a alíquota padrão e recriem a complexidade que se busca eliminar.
Daí decorre o segundo mandamento: não criar exceções eternas. Todo benefício deveria nascer com prazo, meta de resultado e avaliação independente. A transformação de exceções temporárias em direitos permanentes é um dos mecanismos mais persistentes de baixa produtividade. O terceiro mandamento completa o tripé inicial ao defender a abertura da economia à competição. Proteção permanente reduz o incentivo a inovar e encarece insumos. Uma abertura previsível, com redução de tarifas de bens de capital e novos acordos comerciais, é em si uma reforma de produtividade.
Infraestrutura e capital humano
O quarto mandamento trata a infraestrutura como plataforma. Estradas ruins e portos congestionados funcionam como impostos invisíveis sobre toda a economia. Infraestrutura não é apenas obra. É produtividade materializada em concreto, fibra e tempo economizado.
O quinto mandamento volta a atenção para a educação, e aqui a distinção importa: ampliar matrícula não garante aprendizado. A agenda começa na primeira infância e exige avaliação, formação de professores e gestão escolar séria. Os casos do Ceará e do Paraná, citados pela Kinea, mostram que resultados melhores são alcançáveis quando há gestão e incentivos bem desenhados.
Empresas, capital e segurança jurídica
O sexto mandamento pede que as empresas possam crescer. Regimes como Simples e MEI, pensados para incluir, acabam por punir a escala. Uma economia que pune a escala condena suas empresas a viverem pequenas, e seus trabalhadores a salários baixos. Redesenhá-los como pontes, com transição gradual, libera capital e trabalho.
O sétimo mandamento lembra que, com juros reais altos, a qualidade da alocação de capital fica ainda mais crítica. Pix, Open Finance, o marco das garantias e a reforma da recuperação judicial são avanços relevantes, ainda que a agenda siga incompleta. O oitavo mandamento sustenta o resto: sem segurança jurídica e concorrência, reformas viram promessas. Com elas, viram investimento. Fortalecer o CADE e preservar a autonomia regulatória reduzem o prêmio de risco que hoje inibe parte dos projetos.
Avaliar e inovar
O nono mandamento talvez seja o mais silencioso. A cultura de avaliação de políticas públicas, com diagnóstico, métrica e prazo definidos, é provavelmente a reforma mais transformadora porque distingue política social legítima de transferência regressiva. O décimo fecha o ciclo ao tratar a inovação como estratégia horizontal. A seleção discricionária de campeões nacionais já mostrou riscos de captura e baixo retorno. Faz mais sentido priorizar pesquisa básica, difusão tecnológica e digitalização das pequenas e médias empresas.
A ordem da travessia
A sequência importa tanto quanto a lista. No curto prazo, proteger a Reforma Tributária e revisar gastos tributários. No médio prazo, infraestrutura, abertura comercial e mercado de capitais. No longo prazo, capital humano e inovação. Por trás de tudo há um problema de natureza institucional: a ausência de previsibilidade, de confiança e de respeito ao capital como instrumento de investimento. Crescer 4% ao ano, patamar mencionado como objetivo, exige bem mais do que uma reforma isolada.
O que isso significa para quem investe
Reforço que este é um texto educativo, e não uma recomendação de compra ou venda de qualquer ativo. Para o investidor, a leitura útil é macro. A produtividade é a variável que, ao longo do tempo, separa um movimento de preço de curto prazo de uma tese mais estrutural sobre o país. Avanços consistentes nessa agenda tendem a mudar a forma como o Brasil é avaliado lá fora, mas cenários prospectivos não são garantidos, e rentabilidade passada não assegura resultados futuros. Qualquer decisão sobre setores ou classes de ativos depende da adequação ao seu perfil, e é isso que conversamos individualmente. Na prática, sugiro acompanhar a tramitação da regulamentação tributária e a disciplina fiscal como termômetros concretos, em vez de reagir a manchetes. É um exercício de paciência informada, que combina bem com horizontes mais longos.
Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.