Uma Visão Sobre as Projeções de Inflação e PIB

Hiato do produto e inflação: por que o crescimento de 2026 pode assustar menos do que parece

26 de junho de 20264 min de leituraGustavo Trotta
Uma Visão Sobre as Projeções de Inflação e PIB

Hiato do produto e inflação: por que o crescimento de 2026 pode assustar menos do que parece

O Relatório de Inflação de junho revisou o PIB para cima, mas a origem desse crescimento importa tanto quanto o número

O Banco Central elevou, no Relatório de Inflação de 25 de junho de 2026, a projeção de crescimento do PIB de 1,6% para 2%. Junto disso veio uma revisão do hiato do produto, que já era positivo e foi ajustado para cima. Em termos simples, a leitura oficial passou a indicar uma economia rodando acima do seu potencial.

Para muita gente no mercado, esse é um sinal de alerta. Economia aquecida, demanda forte, pressão sobre preços. A sequência parece automática. Eu acho que vale desacelerar um pouco antes de chegar a essa conclusão. O número agregado esconde uma composição que muda bastante a interpretação.

De onde veio esse crescimento

A revisão do PIB não foi puxada por consumo das famílias nem por um salto generalizado de atividade. Os dois motores foram agropecuária e indústria extrativa, basicamente petróleo. São setores de oferta, e são setores exportadores.

Isso faz diferença por um motivo direto. Quando a economia cresce porque o brasileiro está gastando mais em serviços, restaurantes e bens duráveis, há de fato uma pressão de demanda que tende a aparecer nos preços. Quando ela cresce porque o país extraiu e exportou mais petróleo e produziu uma safra maior, a história é outra. A produção adicional foi vendida lá fora, com preços formados no mercado global, e foi financiada em dólares. Não é estímulo de demanda interna.

Foi nesse ponto que me chamou atenção a leitura de Claudio Andrade, sócio-fundador da Polo Capital. O argumento dele é que o crescimento acima do potencial, neste caso, está vindo de setores benignos do ponto de vista inflacionário. Crescimento puxado pela oferta, e sem maiores consequências sobre os preços domésticos.

O problema de usar o hiato cheio

O hiato do produto é a distância entre o PIB que a economia efetivamente entrega e o PIB potencial, aquele que ela conseguiria sustentar sem gerar pressão inflacionária. Quando o hiato fica positivo, a interpretação convencional é que a economia opera no limite, e que daí nascem pressões sobre os preços.

O ponto que merece atenção é que nem todo crescimento entra nessa conta da mesma forma. Petróleo e agricultura têm peso reduzido nos índices de inflação que medimos no dia a dia, justamente porque boa parte do que produzem segue para fora ou tem preço atrelado ao exterior. Se uma fatia relevante do crescimento veio dessas duas fontes, o hiato cheio pode estar superestimando a pressão inflacionária efetiva.

Em outras palavras, a economia pode parecer mais apertada do que está, do ponto de vista que de fato importa para o IPCA. Não é certo que as pressões inflacionárias necessariamente venham desse hiato revisado.

Então de onde vêm as pressões nos núcleos

Vale a ressalva para não cair no extremo oposto. Dizer que esse crescimento específico pesa pouco na inflação não é o mesmo que dizer que não existe inflação a acompanhar. Os núcleos, os chamados índices core, podem estar pressionados por outras razões.

Duas me parecem plausíveis. A primeira é um choque de oferta pontual, em combustíveis, por exemplo, que se espalha por cadeias de custo. A segunda é uma demanda localizada, gerada por transferências de renda a populações com alta propensão ao consumo, que gastam quase tudo o que recebem. São causas distintas do aquecimento geral sugerido pelo hiato, e pedem respostas distintas. Confundir a origem do problema costuma levar a remédios mal calibrados.

Uma sugestão de método

A proposta que Andrade coloca, e que considero útil, é de ordem prática. Talvez fosse mais esclarecedor se os economistas passassem a contemplar, em suas análises, o crescimento do PIB descontando o impacto de petróleo e agropecuária, e só então comparar esse dado depurado com o PIB potencial.

O resultado seria um indicador mais aderente à pergunta que realmente interessa para a política monetária. Não quanto a economia cresceu no total, mas quanto cresceu na parte que de fato pressiona os preços que o Banco Central persegue. É um ajuste analítico, não uma conclusão sobre juros.

O que faço com isso na prática

Para quem acompanha o ciclo de juros e monta carteiras a partir dele, o recado não é ignorar o hiato. É ler a sua composição antes de reagir ao número de manchete. Um PIB revisado para cima por safra e petróleo carrega uma mensagem diferente de um PIB revisado para cima por consumo das famílias, mesmo quando o headline é idêntico.

Para o investidor, isso reforça uma postura que tento manter nas conversas de assessoria. Antes de ajustar expectativa de inflação ou de juros com base em um dado isolado, vale entender o que está por trás dele. A decisão de alocação depende do seu perfil e dos seus objetivos, e o trabalho de assessoria existe justamente para traduzir esse tipo de leitura macro em escolhas adequadas a cada caso. O dado de junho não fecha o debate sobre inflação, mas ajuda a fazer perguntas melhores sobre ele.

Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.