Ata da Reunião do Comitê de Política Monetária — 15 e 16 de setembro de 2026
Copom corta a Selic para 13,75%, e deixa claro que o juro segue restritivo

Copom corta a Selic para 13,75%, e deixa claro que o juro segue restritivo
A decisão de setembro foi unânime, mas a ata não abre espaço para leitura otimista. As expectativas de inflação continuam acima da meta em todos os horizontes.
Na 281ª reunião, realizada em 15 e 16 de setembro de 2026, o Copom reduziu a taxa Selic para 13,75% ao ano. A decisão foi unânime entre os sete membros votantes. Li a ata com calma, e o que fica não é a sensação de virada de ciclo que muita gente esperava ler. O corte veio acompanhado de um recado explícito: a política monetária continua restritiva, e vai continuar por um tempo.
Vale separar duas coisas que costumam se misturar na conversa com o cliente. Uma é a direção do juro, que agora aponta para baixo. A outra é o nível em que ele permanece, que segue alto. O Copom cortou, e no mesmo documento explicou por que não pode cortar mais rápido.
A inflação melhorou, mas não o bastante
A inflação cheia desacelerou. A média das medidas subjacentes, aquelas que tentam capturar a tendência descontando os itens mais voláteis, também desacelerou. As duas ficaram abaixo do teto da meta.
É um avanço real, e merece ser dito. Só que abaixo do teto não é o mesmo que na meta. Os dois indicadores seguem acima do centro, e é o centro que orienta a decisão do Comitê. Enquanto a distância existir, o Banco Central trabalha com a hipótese de que o trabalho não terminou.
O ponto que trava tudo são as expectativas
Aqui está, na minha leitura, o coração da ata. As expectativas de inflação coletadas pelo Focus continuam acima da meta em todos os horizontes: 4,9% para 2026 e 4,3% para 2027. O próprio Copom projeta 3,2% para o primeiro trimestre de 2028, que é o horizonte relevante da política monetária hoje.
No cenário de referência, com câmbio de R$ 5,15 por dólar, as projeções do Comitê são de 5,2% em 2026, 3,9% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028. Os preços livres aparecem em 5,2%, 4,1% e 3,2%, e os administrados em 5,3%, 3,5% e 3,2%. São projeções do Banco Central, não resultado contratado. Mudou a premissa de câmbio ou o quadro externo, muda o número.
A frase da ata que melhor resume a postura é esta: "Em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado". Quando o mercado não acredita que a inflação volta para a meta, o Banco Central precisa de juro mais alto para produzir o mesmo efeito. A desancoragem cobra um preço, e quem paga é a economia inteira.
Atividade, emprego e crédito estão respondendo
A ata descreve uma moderação gradual da atividade, mais visível nos setores cíclicos, que são justamente os mais sensíveis a juro. O PIB do segundo trimestre confirmou essa desaceleração.
O mercado de trabalho segue aquecido, com desemprego baixo. Mas o ritmo de criação de vagas e o crescimento dos rendimentos vêm perdendo força na margem. É o tipo de movimento que aparece primeiro nos dados de fluxo e só depois no estoque.
No crédito, a leitura é parecida. As linhas com recursos livres de prazo mais longo perdem força, porque são as mais expostas à política monetária restritiva. O crédito direcionado segue em expansão, o que reduz parte da potência do aperto.
Fiscal, reformas e a taxa neutra
O Comitê reafirmou a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas, e registrou que o enfraquecimento das reformas estruturais está associado a uma possível elevação da taxa de juros neutra. Traduzindo: se a economia perde capacidade de crescer sem pressionar preços, o juro que nem estimula nem contrai sobe junto, e todos os outros juros sobem atrás.
A ata também repete uma convicção que aparece com frequência nos documentos recentes, a de que as políticas devem ser "previsíveis, críveis e anticíclicas".
O balanço de riscos continua inclinado para cima
O Copom avalia que o balanço de riscos para a inflação segue elevado nos dois lados, com assimetria para cima. Entre os riscos altistas, a ata cita choques de oferta, o câmbio e o estímulo à demanda.
Sobre choques de oferta, o Comitê deixou registrado que não pretende reagir aos efeitos primários, mas que vai monitorar eventuais efeitos de segunda ordem e reagir com firmeza caso eles apareçam. É uma distinção técnica com consequência prática: um susto pontual de preço não muda a política, uma contaminação generalizada muda.
O que eu faria com essa informação
Este texto é informativo, não é recomendação para a sua carteira. Ainda assim, há um exercício útil que qualquer investidor pode fazer depois de ler uma ata como essa. O primeiro é aceitar que o juro começou a cair de um patamar alto, e que a ata não promete velocidade. O segundo é revisar se o seu plano foi montado para o nível de juro de hoje ou para o de dois anos atrás, porque o custo de oportunidade de cada decisão muda com ele. O terceiro é resistir à tentação de reposicionar tudo com base em uma reunião isolada.
Qualquer ajuste de fato depende do seu perfil de investidor, dos seus objetivos e do seu horizonte, e é por aí que a conversa precisa começar. Se quiser revisar isso comigo, é só me chamar.
Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.



