Liquidez mal casada com seus objetivos de vida

Liquidez: o risco que quase ninguém coloca na planilha

06 de agosto de 20264 min de leituraGustavo Trotta
Liquidez mal casada com seus objetivos de vida

Liquidez: o risco que quase ninguém coloca na planilha

Por que ter dinheiro investido não é o mesmo que ter dinheiro disponível

Existe um tipo de investidor que me preocupa mais do que aquele que não poupa. É o que poupou bem, escolheu bons ativos, viu o patrimônio crescer no papel e, quando precisou de dinheiro de verdade, descobriu que não conseguia acessá-lo a tempo.

Parece um caso raro. Não é. Acontece com mais frequência do que parece, inclusive com gente de patrimônio relevante. E quase sempre a causa é a mesma. Uma variável que costuma ficar de fora da conta na hora de montar a carteira, a liquidez.

O que é liquidez, na prática

Liquidez é a facilidade de transformar um ativo em dinheiro disponível sem perder valor no caminho. Um título com resgate diário é líquido. Um imóvel, não. Uma cota de um fundo fechado com prazo de saída em anos também não.

O ponto que gosto de reforçar é que iliquidez não significa ativo ruim. Muitos investimentos de prazo mais longo existem justamente porque abrem mão da liquidez em troca de outras características. O problema não está no ativo isolado. Está na proporção que ele ocupa dentro da vida financeira de quem investe.

Rentabilidade no papel não paga conta

Uma carteira pode estar rendendo muito bem quando você olha o extrato. Isso não quer dizer que ela esteja pronta para atender uma necessidade real quando ela chegar.

Penso em situações concretas. Uma emergência de saúde. A troca de um carro que parou de vez. Uma oportunidade de negócio com prazo curto para decidir. A entrada de um imóvel. Nesses momentos, o que importa não é quanto o patrimônio valorizou. É quanto dele está acessível hoje, esta semana, este mês.

Quando a resposta é "quase nada, porque está tudo comprometido em prazos longos", o investidor bem-sucedido no papel vira refém das próprias escolhas. Às vezes precisa vender um ativo na pressa, aceitando um valor abaixo do justo. Às vezes recorre a crédito caro para cobrir uma despesa que o próprio patrimônio deveria cobrir. Ter o dinheiro preso enquanto uma necessidade real se aproxima pode ser tão prejudicial quanto não ter reserva alguma.

Por que esse risco passa despercebido

A iliquidez é silenciosa. Ela não aparece num gráfico de retorno, não pesa na sensação de estar indo bem. Enquanto nada acontece, a carteira concentrada em prazos longos parece impecável.

O risco só se revela no pior momento possível, quando a necessidade bate à porta. Por isso ele é tão subestimado. Diferente da volatilidade, que a gente sente todo dia no sobe e desce das cotações, a falta de liquidez fica invisível até o instante em que vira um problema urgente.

Há também um componente psicológico. Alocar em ativos de prazo mais longo costuma dar uma sensação de disciplina, de estar pensando grande. E de fato pode ser uma decisão acertada. O erro não é alocar em prazos longos. É fazer isso sem reservar uma parcela compatível com o que a vida pode exigir no curto prazo.

Adequação é prazo, não só retorno

Quando avalio se uma carteira faz sentido para alguém, retorno esperado é apenas um dos critérios. O outro, tão importante quanto, é a compatibilidade entre os prazos dos ativos e os prazos das necessidades daquela pessoa.

Uma carteira adequada conversa com a vida de quem a possui. Ela tem uma camada de recursos acessíveis para o imprevisto imediato, uma camada para objetivos de médio prazo já mapeados e uma camada de prazo mais longo, onde a iliquidez é uma escolha consciente e não um acidente. A distribuição entre essas camadas muda de pessoa para pessoa. Depende do perfil, da fase de vida, das obrigações que cada um carrega e dos planos que pretende realizar.

Não existe proporção única que sirva para todos. Existe, sim, a obrigação de fazer a pergunta. Se eu precisar de uma quantia relevante em trinta dias, quanto do meu patrimônio responde a esse chamado sem me machucar?

O que fazer com isso

Meu convite é simples e você pode começar hoje. Pegue sua carteira e classifique cada ativo pelo tempo que levaria para virar dinheiro disponível na sua conta sem prejuízo relevante. Um dia, um mês, um ano, mais que isso.

Depois compare esse mapa com a sua realidade. Suas despesas, seus planos, os imprevistos plausíveis para alguém na sua situação. Se a maior parte do patrimônio estiver em prazos longos e a camada de recursos acessíveis for fina demais, você encontrou um ponto cego que vale corrigir com calma, antes que a necessidade apareça.

Planejamento de liquidez não é um detalhe operacional. É parte da estrutura de qualquer estratégia patrimonial que se pretenda responsável. Construir patrimônio é importante. Conseguir usá-lo quando a vida pedir é o que dá sentido a ele.

Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.
Gustavo Trotta
Quem escreve
Gustavo Trotta

Assessor de investimentos e sócio da Valor Investimentos, escritório credenciado à XP. Certificado CFP, atua com estratégia patrimonial e planejamento financeiro de longo prazo.

Sobre mim

O que isso muda na sua carteira

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