O imóvel que engoliu o plano de aposentadoria

Metade do patrimônio dentro de um imóvel: o que isso faz com sua renda na aposentadoria

14 de agosto de 20264 min de leituraGustavo Trotta
O imóvel que engoliu o plano de aposentadoria

Metade do patrimônio dentro de um imóvel: o que isso faz com sua renda na aposentadoria

A decisão de comprar um imóvel quase nunca é simulada contra a renda que você vai precisar décadas depois. Essa conta muda o resultado.

Recebo com frequência a mesma pergunta, formulada quase do mesmo jeito: "vale a pena comprar esse imóvel?". A conversa então gira em torno do preço e da localização. Raramente alguém chega perguntando o que aquela compra faz com a renda de que essa mesma pessoa vai precisar daqui a vinte ou trinta anos. É uma pergunta menos empolgante. Também é a que mais muda o resultado final.

Quero tratar aqui de um caso comum na prática de planejamento: o investidor que, sem perceber, deixa metade do patrimônio imobilizada em um único bem. Não estou dizendo que comprar imóvel seja um erro. Estou dizendo que a conta costuma ser feita pela metade.

A compra do imóvel costuma ser decidida sozinha

A decisão do imóvel quase nunca entra na mesma planilha do plano de aposentadoria. Ela nasce de outro lugar. Da vontade de sair do aluguel, de uma mudança na família, de uma oportunidade que apareceu naquele mês. São motivos legítimos e humanos.

O problema aparece depois. A pessoa avalia se consegue pagar a entrada e as parcelas, conclui que sim, e fecha negócio. O que ela não avaliou foi o efeito da compra sobre o patrimônio que ficaria disponível para gerar renda no futuro. A decisão passou por um teste de fluxo de caixa presente. Não passou por um teste de renda futura.

O que significa imobilizar metade do patrimônio

Quando metade do que você acumulou está dentro de um imóvel de uso próprio, essa metade continua sendo patrimônio. Ela tem valor, tem função, tem uso. O que ela deixa de ter é a capacidade de virar fluxo mensal quando você parar de trabalhar.

Um imóvel de moradia não deposita nada na sua conta todo mês. Ele faz o contrário: consome recursos com IPTU e manutenção. Ele também não é divisível. Você não vende dois quartos para cobrir seis meses de despesas. E a liquidez depende do mercado no momento em que a venda for necessária, que costuma ser justamente o momento em que você tem menos margem para esperar.

O resultado é uma assimetria silenciosa. No papel, o patrimônio parece robusto. Na prática, a parte dele capaz de sustentar seu padrão de vida é bem menor do que o número total sugere.

A renda-alvo precisa vir antes

A sequência que costumo sugerir em planejamento inverte a ordem habitual. Primeiro se define quanto você quer receber por mês quando parar de trabalhar, em valores de hoje. Depois se estima qual volume de capital financeiro precisaria estar acumulado para sustentar essa retirada ao longo do tempo, considerando prazo e expectativa de vida.

Só então entra a pergunta sobre o imóvel. Quanto do patrimônio pode ficar imobilizado sem que a carteira financeira fique abaixo do necessário para aquela renda-alvo?

Essa ordem muda a natureza da conversa. Em vez de perguntar "consigo pagar?", você passa a perguntar "o que essa compra custa da minha renda futura?". São perguntas diferentes e levam a decisões diferentes. Às vezes a resposta é comprar mesmo assim, com consciência do custo. Às vezes é comprar um imóvel menor. Às vezes é adiar.

Patrimônio imobilizado e patrimônio líquido cumprem funções distintas

Vale separar os dois nomes na sua cabeça, porque eles não se substituem. O patrimônio imobilizado resolve moradia e pode significar segurança para a família. O patrimônio líquido, alocado conforme o seu perfil de investidor e seus objetivos, é o que tende a se transformar em renda recorrente.

Uma carteira financeira construída para complementar renda não se define por produto isolado. Ela se define por prazo, por necessidade de liquidez e por tolerância a oscilação. A adequação de qualquer estrutura depende do perfil de cada pessoa, e por isso nada do que descrevo aqui deve ser lido como indicação de alocação para o seu caso específico.

Como revisar essa proporção sem decisões drásticas

Quem já está com o patrimônio concentrado em imóvel não precisa partir para a venda. Existem caminhos mais graduais.

O primeiro é direcionar os aportes seguintes preferencialmente para a carteira financeira, deixando que o tempo reequilibre a proporção. O segundo é rever o tamanho da próxima aquisição, se houver, dimensionando-a a partir do que sobra para a renda futura. O terceiro é acompanhar a proporção entre imobilizado e líquido com a mesma frequência com que se acompanha rentabilidade, porque esse é um desequilíbrio que só costuma aparecer décadas depois, quando o espaço para corrigir já ficou estreito.

Conclusão prática

Se você está pensando em comprar um imóvel nos próximos meses, faça um exercício simples antes de assinar qualquer coisa. Escreva quanto do seu patrimônio total ficará imobilizado depois da compra, escreva quanto sobrará em ativos financeiros, e compare esse valor restante com o capital que seu plano de aposentadoria pressupõe. Se os números não conversarem, você ainda está em tempo de ajustar o tamanho da decisão. Recomendo fazer essa revisão junto de quem acompanha seu planejamento, considerando seu perfil e seu horizonte. A intenção não é desestimular a compra de imóveis, e sim colocar a renda futura dentro da conta antes que ela seja decidida por omissão.

Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.
Gustavo Trotta
Quem escreve
Gustavo Trotta

Assessor de investimentos e sócio da Valor Investimentos, escritório credenciado à XP. Certificado CFP, atua com estratégia patrimonial e planejamento financeiro de longo prazo.

Sobre mim

O que isso muda na sua carteira

Cenário só vira decisão quando encontra um objetivo. Se quiser entender o que esta leitura significa no seu caso, me chame. A primeira conversa não tem custo e não tem apresentação de produto.

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