Sua carteira não precisa votar!

Sua carteira não precisa votar

29 de setembro de 20265 min de leituraGustavo Trotta
Sua carteira não precisa votar!

Sua carteira não precisa votar

O sinal fiscal que vem depois de outubro é a variável mais importante para os juros e para o câmbio nos próximos meses, e é justamente a que ninguém aqui controla.

Toda eleição me traz o mesmo tipo de pergunta, e ela quase nunca é sobre produto. É sobre quem vai ganhar, e o que fazer com a carteira em cada caso. Entendo a ansiedade, e venho insistindo com clientes numa ideia que parece simples e é difícil de praticar: sua carteira não precisa votar.

O que muda de uma noite para a outra

Um trabalho de Meeuwis, Parker, Schoar e Simester, publicado no Journal of Finance, mediu isso em contas reais de investidores americanos. Depois da eleição de 2016, quem estava do lado vencedor aumentou a exposição a ações. Quem estava do lado derrotado migrou para ativos mais defensivos. A informação disponível era a mesma para todos. O que diferia era a opinião sobre ela.

As pesquisas de confiança do consumidor da University of Michigan mostram o mesmo padrão a cada ciclo. O otimismo de quem venceu sobe, o de quem perdeu cai, e a média do país quase não se mexe. Faz sentido, porque a economia não mudou na noite da apuração. Mudou quem vai governar. Epicteto já dizia que sofremos menos com os fatos e mais com a opinião que formamos a respeito deles, e o extrato da corretora é um lugar onde isso fica visível. Quando a carteira muda conforme quem ganha, ela passou a votar.

O medo eleitoral às vezes erra e às vezes acerta

Em 2002 o dólar chegou perto de R$ 4 e a bolsa fechou o ano em queda. Quem vendeu tudo no susto ficou de fora de 2003, ano em que o Ibovespa subiu 97%, segundo dados da B3. Em 2014 o medo se confirmou. O ano seguinte trouxe recessão, com a bolsa em queda enquanto o dólar disparava.

Cito os dois episódios porque nenhum deles é regra. Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura, e esses números servem para mostrar o tamanho da dispersão dos resultados possíveis, não para escolher qual cenário vai se repetir.

Há outro detalhe que torna a aposta ainda mais ingrata. O mercado se move antes da apuração, pela pesquisa. Em setembro deste ano, uma pesquisa eleitoral fez o Ibovespa subir 3% em um único pregão. Depois de primeiro turno, a bolsa já variou mais de 4% em um só dia. Quem tenta acompanhar esse movimento costuma comprar depois da alta e vender depois da queda.

O que de fato importa desta vez

Menos o nome do vencedor e mais o que ele sinaliza. A dívida pública bruta está em 82,5% do PIB e em trajetória de alta, conforme dados do Banco Central do Brasil e do IBGE. Ao mesmo tempo, a inflação cede e o Banco Central iniciou o corte da Selic. Até onde esse corte vai depende, em boa parte, do sinal fiscal que vier de Brasília depois de outubro.

Sinal fiscal não é discurso de campanha. É o que o eleito faz nas primeiras semanas de mandato: a meta de resultado que assume, a regra que propõe para o crescimento dos gastos, quem senta na equipe econômica e quais medidas seguem primeiro para o Congresso. Se vier um sinal crível, há espaço para o prêmio de risco ceder. Sem ele, o caminho tende a ser o oposto. Nenhuma das duas hipóteses é previsão.

Os preços já embutem essa dúvida. Títulos públicos atrelados ao IPCA pagam hoje mais de 7% ao ano acima da inflação. A Instituição Fiscal Independente, do Senado Federal, no Relatório de Acompanhamento Fiscal de setembro de 2026, avalia que o peso da dívida no prêmio de risco dos juros já supera o observado na crise de 2014 a 2016. O mercado está cobrando caro para carregar essa incerteza.

Uma carteira desenhada para não adivinhar

Fiz um exercício histórico com uma carteira hipotética: 60% em CDI, 20% em bolsa e 20% em dólar, rebalanceada uma vez por ano, a partir de séries públicas da B3 e da ANBIMA. Em 2002 e em 2014 ela não foi a melhor escolha, e também não foi a pior. Nos dois períodos superou a inflação. É um exercício simplificado e ilustrativo, não é recomendação de alocação, e a composição adequada para cada investidor depende do perfil e do prazo de cada um.

O que faz esse tipo de arranjo funcionar não é a escolha inicial, é o rebalanceamento. Uma vez por ano, vender o que mais subiu e comprar o que mais caiu. Escrito assim parece trivial. Na prática é o contrário do que o medo pede em novembro de um ano ruim, e o contrário do que a euforia pede quando tudo vai bem.

O custo de tentar acertar o momento

Esse custo é mensurável. O estudo Mind the Gap 2026, da Morningstar, mostra que o investidor médio ganha mais de 1 ponto percentual ao ano a menos do que os próprios fundos em que investe. Mesmo fundo, resultado pior, só por causa das datas de entrada e de saída. Em ano de eleição, a tentação de escolher datas aumenta bastante.

Conclusão prática

O que sugiro é resolver agora, antes do primeiro turno, aquilo que depende de você. Revise a alocação e registre por escrito a data em que vai rebalancear, para não deixar a decisão na mão do humor de dezembro. Confira se a reserva de liquidez cobre os compromissos dos próximos doze meses, porque é ela que impede a venda de ativo de risco no pior momento. E revisite seu perfil com quem te assessora, já que a dose de bolsa e de moeda forte que serve para um investidor não serve para o outro. Feito isso, o resultado da eleição deixa de ser uma decisão de carteira e volta a ser uma decisão de cidadão. Quem quiser fazer essa revisão comigo, o melhor é marcar a conversa antes de outubro, com tempo de ajustar sem pressa.

Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.
Gustavo Trotta
Quem escreve
Gustavo Trotta

Assessor de investimentos e sócio da Valor Investimentos, escritório contratado da XP. Certificado CFP, atua com estratégia patrimonial e planejamento financeiro de longo prazo.

Sobre mim

O que isso muda na sua carteira

Cenário só vira decisão quando encontra um objetivo. Se quiser entender o que esta leitura significa no seu caso, me chame. A primeira conversa não tem custo e não tem apresentação de produto.

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