Sua rentabilidade parece ótima? Confira se não é só a Selic

Juro real alto: quando o retorno não vem da sua estratégia

08 de setembro de 20264 min de leituraGustavo Trotta
Sua rentabilidade parece ótima? Confira se não é só a Selic

Juro real alto: quando o retorno não vem da sua estratégia

Boa parte do ganho acima da inflação que os investidores vêm observando tem origem no patamar de juros do país, e esse componente não é permanente

Tenho tido uma conversa recorrente no escritório. O investidor abre o extrato, vê um ganho acima da inflação que há alguns anos pareceria improvável e conclui que acertou a mão. Às vezes acertou mesmo. Mas em boa parte dos casos que acompanho o mérito está em outro lugar, e essa distinção não é preciosismo acadêmico. Ela muda o que a pessoa vai decidir nos próximos anos.

O número que aparece no extrato

Circula no mercado a referência de retorno real de dois dígitos, ou seja, acima da inflação. Não trato esse número como um dado preciso, até porque ele costuma aparecer sem fonte e sem período definido. Uso como ordem de grandeza, nada além disso.

O ponto aqui não é o tamanho do retorno. É a atribuição. Quando pergunto ao cliente de onde veio aquele resultado, a resposta quase sempre passa por alguma escolha que ele fez: o produto que selecionou, o momento em que entrou, o gestor que contratou. Raramente alguém menciona o cenário.

E vale registrar o óbvio, que às vezes se perde no entusiasmo: rentabilidade passada não garante rentabilidade futura.

Quem está fazendo o trabalho

Juro real é o que sobra do juro nominal depois de descontada a inflação. Quando a taxa básica está em patamar elevado, todo o sistema se ajusta a isso. Quem empresta dinheiro no país passa a ser remunerado de forma generosa em termos reais, e essa remuneração chega ao investidor com pouquíssimo esforço de decisão.

É o juro alto do país fazendo o trabalho, não a sua estratégia.

Repare no que isso significa na prática. Duas pessoas com carteiras bastante diferentes, uma montada com critério e outra montada no impulso, podem exibir resultados parecidos num ambiente assim. O piso de retorno está alto para todo mundo. Isso comprime a diferença entre a boa e a má decisão, pelo menos temporariamente.

O componente que não é permanente

Juro é ciclo. Não estou aqui fazendo projeção sobre a trajetória da Selic, nem seria adequado. O que afirmo é estrutural: se e quando a taxa básica recuar, o componente do retorno que vinha do cenário encolhe junto. Ele não some por causa de um erro do investidor. Ele some porque a fonte dele era outra desde o início.

O problema é que a leitura do desempenho não se ajusta na mesma velocidade. A pessoa carrega a expectativa formada no período anterior para um ambiente que já não a sustenta.

O risco de confundir mérito com contexto

O desdobramento mais comum é o excesso de confiança. Quem interpreta o resultado do ciclo como habilidade própria tende a fazer duas coisas. Primeiro, aumenta a exposição a risco achando que a leitura de mercado dele é melhor do que é. Segundo, cobra do futuro um desempenho que dependia de uma condição que mudou.

A frustração que vem depois costuma ser desproporcional. Não porque a carteira ficou ruim, mas porque a régua estava calibrada errada.

Há também o caminho inverso, menos falado. Investidores que subestimam decisões realmente boas que tomaram, porque nunca fizeram o exercício de separar o que foi cenário do que foi escolha. Nos dois casos a análise de performance está incompleta.

Como separar as duas coisas

Não é um exercício complicado, mas exige método. Algumas perguntas que costumo usar com clientes:

Comparado a quê? Um retorno só significa alguma coisa contra uma referência. Se a carteira entregou pouco acima do que o próprio juro básico oferecia no período, com risco maior, houve escolha ativa e ela não se pagou.

O que essa carteira entregaria num ambiente de juro mais baixo? É a pergunta mais desconfortável e a mais útil. Ela obriga a olhar a composição, não o número final.

Qual parte do resultado veio de decisão minha? Alocação entre classes, prazo, diversificação, escolha de gestores. Isso é decisão. O nível da taxa básica não é.

O horizonte foi respeitado? Resultado de janela curta diz pouco sobre qualidade de processo.

O que fazer com isso na prática

Se o seu retorno recente chamou atenção, vale usar esse momento para revisar a carteira com calma, não para aumentar a aposta. Reveja se a alocação atual continua compatível com o seu horizonte e com a sua tolerância a oscilação, e não apenas com o retorno que ela vem mostrando. Ao olhar qualquer produto, lembre que a adequação depende do seu perfil de investidor, e que estrutura boa num cenário de juro alto pode se comportar de outro jeito quando o cenário mudar.

Nada disso aqui é recomendação para o seu caso específico. É um convite a fazer uma leitura mais honesta do próprio desempenho, com apoio de quem acompanha a sua carteira de perto. Prefiro puxar essa conversa antes da virada do ciclo, quando ainda dá tempo de ajustar sem pressa.

Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.
Gustavo Trotta
Quem escreve
Gustavo Trotta

Assessor de investimentos e sócio da Valor Investimentos, escritório contratado da XP. Certificado CFP, atua com estratégia patrimonial e planejamento financeiro de longo prazo.

Sobre mim

O que isso muda na sua carteira

Cenário só vira decisão quando encontra um objetivo. Se quiser entender o que esta leitura significa no seu caso, me chame. A primeira conversa não tem custo e não tem apresentação de produto.

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