Cenário Pré Eleitoral 2026

Agosto teve placar calmo e enredo agitado

02 de setembro de 20265 min de leituraGustavo Trotta
Cenário Pré Eleitoral 2026

Agosto teve placar calmo e enredo agitado

O CDI acima de 1% no mês e a bolsa de lado escondem mudanças relevantes no juro real americano, no endividamento das famílias brasileiras e nos preços de fundos imobiliários

Fecho todo mês olhando o placar das classes de ativos. Em agosto ele foi discreto. O CDI entregou 1,09% no mês e 14,63% em doze meses. A Bovespa subiu 0,3%, puxada por bancos e elétricas. Parece um mês morno. Não foi.

Por trás desse número tranquilo houve uma sequência de eventos que, na minha leitura, altera a conversa sobre alocação nos próximos trimestres. Ouro subiu perto de 10% no mês. Criptoativos, algo como 28,5%. O crédito privado pós-fixado acumula cerca de 9,83% no ano, quase o mesmo do Ibovespa no período (10,11%). Registro desde já: todos esses números são passado, e rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura.

A inflação voltou a incomodar lá fora

O núcleo do PCE americano tinha caído de 5,6% para 2,6%. Voltou a subir e está perto de 3,3%. São 65 meses seguidos acima da meta de 2%. Mesmo assim, o Federal Reserve sinalizou recompra de títulos, ou seja, mais liquidez no sistema com a inflação ainda acima do alvo.

O mercado leu isso rápido. Nos três pregões seguintes, o Bitcoin subiu 19%, o ouro subiu 6% e o dólar perdeu força frente a outras moedas. É a reação típica de quem passa a duvidar do poder de compra da moeda de referência.

O ouro deixou de seguir o roteiro antigo

Por cerca de vinte anos o ouro andou de forma inversa ao juro real americano. Essa relação se rompeu. As explicações mais razoáveis que vejo apontam para geopolítica e, principalmente, para o nível de endividamento dos países desenvolvidos.

Repare no que aconteceu com os juros longos nos Estados Unidos e no Reino Unido, que chegaram perto de 6% na ponta mais longa da curva. Isso não é juro subindo por ciclo econômico. É juro subindo por questão fiscal. A dívida bruta americana está em torno de 124% do PIB. Em 1981 era 31%.

O que mudou não foi o Brasil

Aqui está o ponto que considero mais mal compreendido do momento. Nosso juro real de aproximadamente 9,6% parece exagerado quando comparado a Rússia (8%), Colômbia (6%) ou Turquia (5,3%). Mas o prêmio que o Brasil paga sobre o juro real americano está em torno de 5,3%, contra uma média histórica de 5% e desvio padrão de 0,8. Estamos dentro da média.

O que se moveu foi o outro lado da conta. O juro real americano saiu de terreno negativo, em 2021, para perto de 2,4% hoje. Juro real de 9,6% não é generosidade brasileira. É o preço do risco somado a um mundo que ficou mais caro.

Há uma divergência que sigo acompanhando: o real se valorizou 5,7% no ano, sendo a segunda moeda emergente que mais subiu, enquanto a curva de juros continua precificando um cenário fiscal difícil, com déficit nominal rodando entre 8% e 9% do PIB. Quando um indicador precifica o problema e o outro segue calmo, vale entender por que.

A conta que chegou na casa das famílias

O endividamento das famílias brasileiras saiu de 38,2% da renda anual em 2014 para 49,7%. O comprometimento de renda apenas com juros chegou a 28,5%, o maior nível da série iniciada em 2012.

O detalhe importa. O brasileiro não se endividou comprando imóvel, cuja participação segue estável perto de 3% da renda. Se endividou no cartão de crédito rotativo, que saiu de cerca de 7% em 2018 para 11,5%, e no empréstimo pessoal sem garantia. Isso pesa sobre consumo e inadimplência, e pode antecipar um eventual corte de Selic por atividade fraca, não por ajuste de contas públicas. É um cenário possível, não uma previsão.

Onde o preço já embute pessimismo

Os fundos imobiliários negociam a 0,84 vez o valor patrimonial, contra média histórica próxima de 0,95. Em 2016 e no fim de 2024 esse patamar antecedeu recuperações, o que não significa que se repetirá. Chama atenção que a pessoa física caiu de 56% para 33% do volume negociado em um ano, enquanto institucionais aumentaram posição.

No crédito privado, os fundos de debêntures sofreram cerca de R$ 100 bilhões em resgates em doze meses. O spread abriu de CDI+1,19% para CDI+1,58% e depois voltou para perto de CDI+1,33%. A bolsa brasileira está a 9,7 vezes o lucro, mas a temporada do segundo trimestre foi fraca, com apenas 41% das empresas batendo estimativas, o menor percentual em nove trimestres.

Nada disso é indicação de compra ou de venda. São preços relativos que ajudam a calibrar peso de carteira, e a adequação de qualquer um desses instrumentos depende do perfil e do horizonte de cada investidor.

O que costuma decidir o resultado

Um estudo de alocação baseado em fundos de pensão, com mais de trinta anos de dados, atribuiu 91,5% da performance à escolha das classes de ativos. O momento de entrada respondeu por 4,6%. Outros fatores, 1,8%.

Passei anos vendo investidores gastarem energia tentando acertar a semana da compra. A evidência sugere que a decisão anterior, sobre quanto vai para cada classe e quanto sai do Brasil, pesa incomparavelmente mais.

Conclusão prática

Se eu tivesse que resumir agosto em uma tarefa, seria esta: revisar a proporção entre as classes antes de discutir qual ativo comprar. Olhe quanto da sua carteira depende exclusivamente do CDI, quanto está exposto ao dólar e a ativos fora do Brasil, e quanto está em posições que já sofreram e hoje negociam abaixo da média histórica. Depois, compare com o seu horizonte real de uso do dinheiro, que quase nunca é o horizonte do noticiário. Essa revisão fica bem mais fácil quando feita com o assessor que conhece o seu perfil.

Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.
Gustavo Trotta
Quem escreve
Gustavo Trotta

Assessor de investimentos e sócio da Valor Investimentos, escritório contratado da XP. Certificado CFP, atua com estratégia patrimonial e planejamento financeiro de longo prazo.

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