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Recuperação judicial no varejo: de 2 para 14 casos em seis anos

18 de agosto de 20264 min de leituraGustavo Trotta
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Recuperação judicial no varejo: de 2 para 14 casos em seis anos

O que a série de varejistas brasileiras em recuperação judicial ou extrajudicial entre 2020 e 2026 sugere sobre risco de crédito no setor

Um número que saiu do lugar

Em 5 de agosto de 2020, apenas 2 varejistas brasileiras estavam em processo de recuperação judicial ou extrajudicial. Na leitura mais recente da mesma série, em 5 de agosto de 2026, são 14. É um salto grande para um intervalo de seis anos, e a forma como ele aconteceu me parece dizer mais do que o número final.

Antes de seguir, um esclarecimento que considero necessário. A base que originou esse gráfico não traz autoria identificada do levantamento. Não atribuo o dado a nenhuma instituição porque não tenho essa informação. Trato a série como indicativo de tendência, não como estatística oficial auditada.

Como o patamar mudou

O primeiro degrau veio entre 2021 e 2022, quando a contagem subiu para algo entre 13 e 14 empresas. O movimento está associado à entrada da Americanas no processo, um caso que dispensa apresentação pelo tamanho do balanço envolvido.

O que veio depois é o ponto mais relevante. Entre 2022 e 2024, o número não voltou ao ponto de partida. Oscilou entre 11 e 13, com a entrada de Dia e Polishop na lista. Mesmo com o choque inicial já digerido, o setor seguiu operando com mais de uma dezena de empresas em reestruturação simultânea.

Em 2025 houve nova alta, até 15 casos. Entraram Badar, Marabraz, Tok&Stok, Casa&Video e GPA (Grupo Pão de Açúcar). São perfis bem diferentes entre si, o que enfraquece a leitura de que se trata de um problema de nicho. Casas de móveis e alimentação apareceram na mesma janela.

De evento pontual a característica do ciclo

Minha leitura é que o gráfico documenta uma mudança de natureza, não apenas de intensidade. Em 2020, recuperação judicial no varejo era exceção estatística. A partir de 2021, virou parte da paisagem do setor.

Faz sentido quando se olha o pano de fundo. O varejo brasileiro combina margem operacional apertada com dependência alta de capital de giro. Quando o custo do dinheiro sobe e permanece elevado por vários trimestres seguidos, a despesa financeira passa a consumir o resultado operacional. Empresas que se sustentavam rolando dívida barata deixam de conseguir rolar nas mesmas condições. É isso que um pedido de recuperação formaliza: a companhia não conseguiu honrar seus compromissos nos termos originalmente contratados.

O que isso significa para quem investe

Algumas implicações práticas valem o registro.

Primeiro, risco de crédito corporativo não é assunto exclusivo de quem compra debênture. Quem tem ação de uma varejista carrega o mesmo risco em posição subordinada, ou seja, recebe depois de todos os credores caso algo dê errado.

Segundo, diversificação setorial deixa de ser conselho genérico quando um setor inteiro apresenta estresse recorrente por anos seguidos. Concentração em um único nome tem uma cauda de perda que boa parte dos investidores não dimensiona bem.

Há ainda um terceiro ponto. Preço que caiu muito não é sinônimo de ativo barato. A queda pode estar refletindo deterioração real da estrutura de capital, e não um exagero temporário do mercado. Vale lembrar que desempenho passado, de alta ou de queda, não garante resultado futuro.

Nada disso é recomendação de compra ou venda. As empresas citadas aparecem aqui porque constam da série que estou descrevendo, em caráter estritamente informativo. A adequação de qualquer produto ou ativo depende do perfil e dos objetivos de cada investidor, e isso se verifica caso a caso.

O que o gráfico não diz

As limitações também merecem atenção. A série mostra o momento de entrada de cada empresa, mas não informa se alguma delas já concluiu ou encerrou o processo. Também não traz o porte de cada companhia, então 14 casos podem significar coisas bastante distintas em termos de dívida total envolvida. E não separa recuperação judicial de extrajudicial, que são instrumentos com dinâmicas próprias.

Por isso evito conclusões definitivas sobre o futuro do setor a partir de um dado isolado. Ele serve para levantar a pergunta certa, não para respondê-la sozinho.

Conclusão prática

Se você tem posição relevante em varejo listado, vale revisar quanto do seu patrimônio está exposto a um único emissor e olhar com calma o endividamento líquido sobre a geração de caixa das empresas que carrega. Se você investe em crédito privado, verifique a composição setorial dos fundos em carteira, porque a exposição ao varejo nem sempre fica evidente na lâmina.

Esse tipo de revisão não precisa ser feito no susto. Faz parte da manutenção normal de uma carteira, no mesmo espírito de quem confere o extrato antes de decidir o próximo passo. Se a resposta a alguma dessas perguntas não estiver clara para você hoje, vale trazer o tema para a conversa com seu assessor antes do próximo aporte.

Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.
Gustavo Trotta
Quem escreve
Gustavo Trotta

Assessor de investimentos e sócio da Valor Investimentos, escritório credenciado à XP. Certificado CFP, atua com estratégia patrimonial e planejamento financeiro de longo prazo.

Sobre mim

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Cenário só vira decisão quando encontra um objetivo. Se quiser entender o que esta leitura significa no seu caso, me chame. A primeira conversa não tem custo e não tem apresentação de produto.

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