Ciclos maiores que um mandato
O que os ciclos da economia e do planeta ensinam sobre atravessar uma eleição com equilíbrio
Narração gerada por inteligência artificial a partir da minha voz.

O que os ciclos da economia e do planeta ensinam sobre atravessar uma eleição com equilíbrio
Toda eleição mexe com o humor de um país inteiro, e esse humor costuma chegar à carteira antes da razão. Olhar para ciclos muito mais longos do que quatro anos devolve proporção às decisões de patrimônio, sem tirar a importância do voto.
Acabamos de atravessar mais uma eleição. Foram meses de campanha e de discussão acalorada no almoço de domingo, com notícia lida mais com o coração do que com a cabeça. Para uma parte do país o resultado trouxe alívio, para a outra, apreensão. Os dois lados costumam projetar esse sentimento na economia e, por tabela, nos investimentos.
No fim de setembro, antes do primeiro turno, escrevi aqui que sua carteira não precisa votar. Ali eu mostrava que o mesmo fato econômico vira otimismo ou pessimismo conforme o lado de quem olha, e que tentar acertar o momento costuma custar caro. Continuo pensando assim. Com a apuração encerrada, volto ao tema por outro caminho, o dos ciclos.
Os vieses não acabam com a apuração
Somos humanos, e os vieses vêm junto. Eles influenciam desde a notícia que escolhemos ler até as pequenas decisões de dinheiro do dia a dia, quase sempre sem percebermos. Em período eleitoral ficam mais barulhentos, e não desaparecem quando sai o resultado.
Um dos que mais aparecem nesta hora é o viés de ação, a vontade de fazer alguma coisa para sentir que a situação está sob controle. Michael Bar-Eli e colegas analisaram 286 pênaltis de campeonatos de elite, num estudo publicado em 2007 no Journal of Economic Psychology. Em 93,7% das cobranças o goleiro pulou para um dos lados. Quando ficou no meio, defendeu 33,3% dos chutes. Pulando, defendeu menos de 15%. A explicação dos autores é que tomar o gol parado parece pior do que tomar o gol depois de pular. Na carteira, o pulo é aquela mudança feita para aliviar a ansiedade, sem que o plano tenha pedido.
Outro é a aversão míope à perda. O nome foi dado por Shlomo Benartzi e Richard Thaler, em 1995, à combinação de dois traços: sentir a perda mais do que o ganho e avaliar os investimentos com frequência demais. Num experimento publicado em 1997 por Thaler, Amos Tversky, Daniel Kahneman e Alan Schwartz, os participantes que recebiam o resultado da carteira com mais frequência assumiram menos risco e terminaram com menos dinheiro. O mesmo investimento parecia mais arriscado para quem o acompanhava mais de perto.
Os ciclos que conhecemos da economia
Para falar de ciclos, quase sempre usamos a economia como exemplo. Ela alterna fases de crescimento e de desaceleração, e os juros sobem e descem conforme a inflação. Não é preciso ir longe para ver isso. A Selic estava em 2% no começo de 2021, chegou a 15% em 2025 e voltou a cair neste ano. Em cinco anos vimos a subida inteira e o começo da descida, com tudo o que isso mexe na renda fixa e na bolsa.
O ciclo eleitoral, de quatro anos, é mais um deles. Ele pesa sobre o câmbio e os juros longos, e seria ingenuidade dizer que não importa. Mas, quando damos um zoom out, percebemos que os ciclos do nosso planeta são muito mais extensos.
Um zoom out na escala do planeta
O ciclo mais familiar é o das estações. Ninguém se desespera no inverno, porque sabe que ele passa, e ninguém planta como se ele não fosse voltar.
Afastando a câmera, aparecem os ciclos de Milankovitch, as variações lentas da órbita e da inclinação da Terra. Segundo a NASA, a órbita fica mais ou menos alongada num ciclo de cerca de 100 mil anos, e o eixo oscila entre 22,1 e 24,5 graus a cada 41 mil anos, aproximadamente. São mudanças pequenas na forma como a luz do sol se distribui entre os hemisférios e as estações, e são elas que marcam o compasso das eras glaciais. Há uns 800 mil anos, o intervalo entre as glaciações passou a ser de cerca de 100 mil anos. No auge da última, há uns 20 mil anos, o nível do mar estava cerca de 120 metros abaixo do atual. Vivemos num intervalo quente que começou há uns 11.700 anos, e toda a história da agricultura e das cidades cabe dentro dele.
Afastando mais um pouco, até os continentes entram no ciclo. Eles se juntam em supercontinentes e voltam a se separar, num vaivém que leva de 300 a 500 milhões de anos. O mais recente, a Pangeia, se formou há uns 300 milhões de anos. Não é por acaso que o litoral do Brasil se encaixa no da África: os dois estiveram colados, e o Atlântico Sul começou a se abrir há mais de 130 milhões de anos. Ele continua se abrindo. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o fundo do oceano se afasta em média 2,5 centímetros por ano ao longo da cordilheira que corta o Atlântico de norte a sul. Em 80 anos de vida, dá uns dois metros.
O astrônomo Carl Sagan popularizou o calendário cósmico, que comprime a história do universo em um único ano. Fazendo o mesmo só com os 4,54 bilhões de anos da Terra, cada segundo do calendário passa a valer cerca de 144 anos. O Atlântico Sul começa a se abrir por volta de 20 de dezembro. O Homo sapiens, com seus 300 mil anos, aparece perto das 23h25 do dia 31. A história do Brasil desde 1500 ocupa pouco mais de três segundos e meio, e um mandato de quatro anos dura menos de três centésimos de segundo.
Não escrevo isso para diminuir a eleição. Ela define políticas que mexem com a vida de milhões de pessoas, e é legítimo ter opinião e se importar com o resultado. Também não quero dizer que tudo volta sempre ao mesmo lugar: nenhum ciclo do planeta se repete de forma idêntica, e os da economia muito menos. O zoom out serve para separar a chuva da semana do clima da região, e isso muda a pergunta que fazemos à carteira.
Paz de espírito
Essa proporção traz algo que vale muito em semanas como as que acabamos de viver, que é a paz de espírito. Ela convive com a preocupação. Quem conhece os ciclos continua sentindo o desconforto da estação ruim, só que reage na medida certa. O agricultor que sabe que a seca vem guarda água antes dela e não vende a terra no meio da estiagem. Com patrimônio funciona do mesmo jeito: a tranquilidade vem de saber que a carteira foi montada para atravessar mais de um cenário, inclusive os que ninguém previu.
Como isso aparece na carteira de cada cliente
No meu trabalho, essa proporção se traduz no perfil de cada cliente. Antes de qualquer conversa sobre cenário, olho para medidas que nenhuma eleição muda sozinha.
A primeira é a capacidade de correr risco, que é diferente da vontade de correr risco. Ela depende da reserva de emergência e dos compromissos que vêm pela frente. Um cliente pode ter estômago para a oscilação da bolsa e, ainda assim, não ter capacidade para ela, porque vai precisar do dinheiro no meio do caminho.
Depois vem o prazo. O dinheiro que paga a escola do ano que vem e o que vai sustentar a aposentadoria daqui a 20 anos vivem em escalas de tempo diferentes. Para o primeiro, um ciclo eleitoral inteiro cabe no horizonte e pesa muito. Para o segundo, ele se parece mais com uma estação.
E há o tamanho de cada posição, que costuma receber menos atenção do que merece. Uma posição bem dimensionada permite atravessar a volatilidade sem ser obrigado a vender no pior momento. Uma posição grande demais transforma qualquer manchete em urgência.
É com essas medidas que desenho a carteira de cada um, e por isso a resposta para "o que fazer depois da eleição" quase nunca é a mesma para dois clientes.
Conclusão prática
Se a eleição despertou a vontade de mexer em tudo, proponho um teste antes. Pergunte se algo mudou na sua vida, e não só no noticiário, como um objetivo novo ou uma necessidade de caixa. Se mudou, é hora de revisar a carteira. Se só o noticiário mudou, vale conferir se o risco que você carrega ainda cabe no seu prazo e se alguma posição cresceu além da conta. O resto pode esperar o rebalanceamento que já estava combinado.
Essa revisão eu faço junto com cada cliente, no tempo de cada um. Estou aqui nos momentos bons e nos momentos ruins da carteira, e é nos ruins que essa conversa faz mais diferença. Contem comigo.
Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.



