Eleição decidida: o que muda (e o que não muda) na sua carteira
A bolsa caiu 13,9% no primeiro pregão depois do resultado. O que os números de segunda-feira mostram sobre cada parte da carteira e o que acompanhar daqui em diante.

A bolsa caiu 13,9% no primeiro pregão depois do resultado. O que os números de segunda-feira mostram sobre cada parte da carteira e o que acompanhar daqui em diante.
Lula foi reeleito no domingo (25) com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo os números finais do TSE. O mercado, que desde o primeiro turno apostava no resultado oposto, ajustou os preços de uma vez na segunda-feira.
O Ibovespa caiu 13,88%, para 176.608 pontos, a maior queda desde março de 2020, com circuit breaker logo na abertura. O dólar subiu 8,2%, para R$ 5,40, e os juros futuros longos saltaram mais de 2,5 pontos percentuais (InfoMoney). Em relatório de segunda-feira, o BTG Pactual projetava queda de 17% para a bolsa "nas próximas semanas". O índice chegou a cair isso dentro do próprio pregão.
No domingo à noite, escrevi sobre ciclos maiores que um mandato e sobre a vontade de mexer na carteira que costuma aparecer depois de uma eleição. O pregão de segunda levou essa vontade ao máximo. Por isso, separo aqui o que mudou de fato e o que continua igual.
O índice não conta a história toda
O tamanho do susto de cada investidor dependeu mais da composição da carteira do que do Ibovespa.

Os índices de consumo, imobiliário e small caps caíram entre 26% e 29% em um dia, quase o dobro do Ibovespa (CNN Brasil). Na outra ponta, só cerca de oito ações fecharam em alta, todas de exportadoras, que ganham com o dólar mais caro (InfoMoney).
A renda fixa também sentiu. O preço do Tesouro IPCA+ 2050 chegou a cair 23,6% na reabertura (InfoMoney) e, pela taxa de fechamento, terminou o dia cerca de 13% abaixo de sexta. Essa perda só se realiza para quem vende antes do vencimento. Quem leva o título até o fim recebe a taxa contratada.
O dinheiro em pós-fixado, como Tesouro Selic e CDBs atrelados ao CDI, rendeu os cerca de 0,05% de um dia útil normal.
O juro real voltou a passar de 7%
Os títulos Tesouro IPCA+ fecharam a segunda pagando entre 7,0% e 7,8% ao ano acima da inflação, mais do que a média de qualquer período desde 2007.

Na sexta, o Tesouro IPCA+ 2032 pagava IPCA + 6,72%. Na segunda, fechou a IPCA + 7,80% (InfoMoney).
Juro real alto pesa na bolsa, porque encarece o crédito e aperta as empresas endividadas. Já para quem investe pensando em objetivos longos, como a aposentadoria, ele abre a chance de garantir um ganho real alto por muitos anos.
Numa conta hipotética, antes do IR e de custos, R$ 100 mil a IPCA + 7% ao ano viram cerca de R$ 387 mil em poder de compra de hoje em 20 anos. A IPCA + 6,4%, seriam R$ 346 mil.
Antes de aproveitar, alguns cuidados:
- O preço oscila até o vencimento, como se viu na segunda. Só faz sentido para dinheiro que pode ficar aplicado até lá.
- As taxas devem seguir voláteis até o anúncio da equipe econômica e o Copom. Comprar em etapas reduz o risco de entrar no pior momento.
- Para dinheiro que pode ser usado antes, o pós-fixado continua sendo o lugar natural. Com a Selic em 13,75%, ele rende bem sem oscilar (Forbes Brasil).
Dólar: proteção que se monta com antecedência
O dólar subiu mais de 8% na segunda, para R$ 5,40, a maior alta diária em 23 anos (CNN Brasil). Quem já tinha parte do patrimônio em moeda forte viu essa parcela amortecer as perdas da bolsa.
Comprar dólar logo depois de um salto desses é chegar atrasado. A exposição internacional funciona como um seguro: define-se uma fatia coerente com o perfil e os objetivos, e ela é montada aos poucos, seja quem for o governo. Essa fatia pode vir de fundos com exposição internacional, ETFs, BDRs ou investimentos feitos diretamente no exterior.
Ações: a primeira reação costuma enganar
Depois da eleição de 2022, a reação do primeiro mês foi um mau guia para o ano seguinte.

Materiais básicos, que subiram 12,8% no primeiro mês, terminaram os 12 meses praticamente no zero a zero. O imobiliário caiu 13,1% e terminou o ano em alta de 1,3%. Já o consumo caiu 10,9% e aprofundou a queda para 28%, segundo levantamento do BTG Pactual. São retornos passados, que não garantem os futuros.
O que definiu aquele ano foi a trajetória dos juros. A Selic ficou em 13,75% até agosto de 2023 e penalizou as empresas mais endividadas e dependentes de crédito.
O ponto de partida agora é parecido, com juro alto e dúvida fiscal. Na prática:
- Vender tudo depois de uma queda de 14% transforma oscilação em perda definitiva.
- Comprar só as exportadoras que já subiram é apostar que o dólar continua disparando.
- Quem tem horizonte longo e ficou abaixo da fatia de ações planejada pode rebalancear aos poucos, dando preferência a empresas com pouca dívida, que sofrem menos com juro alto.
O que acompanhar nas próximas semanas
Os objetivos de cada investimento e o prazo de cada um não mudaram com o resultado da eleição. Os pontos abaixo devem dizer se o estresse do mercado diminui ou aumenta:
- Equipe econômica e plano fiscal. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o governo vai buscar formalmente o centro da meta fiscal (InfoMoney). O mercado vai querer ver medidas concretas.
- Copom de 3 e 4 de novembro. Antes da eleição, a expectativa era de corte da Selic. Depois do resultado, os juros futuros passaram a embutir alta.
- Congresso. O PL fez a maior bancada da Câmara e do Senado, e o governo vai precisar do centro para aprovar qualquer medida fiscal.
- Boletim Focus. Se as projeções de inflação continuarem subindo, o Banco Central terá menos espaço para cortar juros.
Por onde começar
Antes de mexer em qualquer coisa, confira duas contas. A primeira é a reserva: o dinheiro que pode ser necessário no curto prazo deve estar em aplicações que não oscilam, como o pós-fixado. A segunda é o peso de cada classe depois de segunda-feira. Se a bolsa ficou abaixo da fatia planejada, o rebalanceamento que já estava combinado diz o que fazer, e aos poucos.
Se quiser fazer essas contas comigo, é só me chamar.
Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.



