Eleições na visão dos gestores

A exposição a Brasil subiu antes do segundo turno

07 de outubro de 20264 min de leituraGustavo Trotta
Eleições na visão dos gestores

A exposição a Brasil subiu antes do segundo turno

O que 24 gestoras multimercado macro responderam no intervalo entre os dois turnos, e por que o movimento parece mais ajuste de risco do que mudança de cenário

Na primeira sessão depois da apuração do primeiro turno, o Ibovespa subiu mais de 8% e o dólar recuou para a casa de R$ 4,99. Movimento forte e, por isso mesmo, fácil de ler errado. A pergunta que me interessa não é quanto o preço andou, e sim se quem administra risco profissionalmente mudou de ideia sobre o Brasil. O levantamento que a equipe de Análise de Fundos da XP fez em 5 de outubro de 2026 com 24 gestoras multimercado macro ajuda a separar uma coisa da outra.

O que a pesquisa é, e o que ela não é

É uma pesquisa de ocasião, feita no intervalo entre os dois turnos. Diferente da Pré-COPOM regular, embora compartilhe com ela o painel de gestores e o formato. Fabiano Cintra, Clara Sodré, Luiz Felippo e José Pini consolidaram as respostas de forma anonimizada. Vale dizer logo, antes dos números: os percentuais abaixo são leitura de gestoras terceiras, não opinião nem posicionamento da XP, e nada aqui é recomendação personalizada.

A exposição subiu antes do segundo turno

58% das gestoras declararam orçamento de risco em Brasil acima da média dos últimos 12 meses, sendo 16,7% bem acima. Outras 37,5% estão em linha com a média e apenas 4,2% abaixo. A casa já estava mais exposta ao país antes de o eleitor terminar de votar.

Quando perguntadas sobre qual classe oferece a melhor relação entre risco e retorno até o fim de 2026, metade apontou a Bolsa brasileira. Juros reais longos e juros nominais aparecem empatados, com 20,8% cada. Real contra dólar e ativos internacionais ficaram com 4,2%. Isso é leitura de classe de ativo feita por terceiros, não ordem de compra. A adequação de qualquer veículo, fundos multimercado incluídos, depende do seu perfil de investidor e dos seus objetivos.

Copom: um consenso raro

87,5% dos gestores esperam corte de 25 bps na reunião de novembro e 12,5% esperam 50 bps. Nenhuma gestora da amostra projeta manutenção da Selic. As médias das projeções também cederam frente à pesquisa de setembro: IPCA saiu de 4,97% para 4,32%, a Selic de 2027 de 12,0% para 11,50%, o câmbio de R$ 5,17 para R$ 4,91. São estimativas de mercado, sujeitas a revisão a qualquer momento, e não prometem nada sobre o retorno de investimento algum.

O fiscal continua condicionado

Aqui está o ponto que eu considero o mais relevante do levantamento. Sobre a chance de a agenda fiscal avançar depois de 2027, 66,7% responderam que sim, mas condicionado à postura do Executivo eleito. Só 29,2% veem efeito relevante por si só, e 4,2% acham o tema pouco relevante. As próprias gestoras descrevem parte do alívio recente como compressão de prêmio de risco e fator técnico, não como revisão de cenário fiscal. A exposição subiu antes da revisão de cenário, e não por causa dela.

O gatilho tem data

Entre as 17 gestoras que indicaram o que as levaria a reduzir exposição a Brasil, 13 citaram o resultado do segundo turno, em 25 de outubro. Nível de preço e assimetria apareceu em duas respostas. Cenário externo, em outras duas. Uma mencionou o compromisso fiscal do próximo governo, e uma disse que não enxerga fator específico.

Ajuste de exposição, não giro de carteira

Nas três classes pesquisadas, a resposta mais comum no intervalo entre as reuniões do Copom foi manter posição. Em Bolsa, 50% mantiveram, 29,2% aumentaram e 20,8% reduziram. Em juros aplicados, 54,2% mantiveram. No câmbio, 37,5% mantiveram e 25% aumentaram. O ajuste é gradual. Pouca gente mexeu de fato na estrutura da carteira.

A diversificação internacional reforça essa leitura. 45,8% aumentariam Brasil mantendo o exterior, e 29,2% dizem que a melhora recente não altera a tese estrutural de diversificação. Somados, 75% da amostra preserva a exposição fora do país. O aumento de Brasil aparece como ajuste de alocação, não como substituição da carteira global.

Para dimensionar a mudança de humor, ajuda olhar para trás. Na Pré-COPOM de setembro, feita entre 4 e 11 com 20 gestoras, 70% estavam comprados em Bolsa Brasil, 36% comprados em dólar e 55% tinham leitura negativa sobre a economia brasileira, o pior nível da série histórica. Rentabilidade e posicionamento passados, dos gestores ou de qualquer ativo, não garantem o que vem depois.

O que eu faço com isso na prática

Nada disso define o que você deve fazer. Serve para calibrar expectativa. Se a sua carteira ficou mais exposta ao Brasil nas últimas semanas, vale checar se isso foi decisão sua ou apenas efeito da marcação a mercado, porque são situações bem diferentes na hora de rebalancear. E se você está pensando em aumentar risco local agora, a pergunta mais útil é justamente a que as gestoras responderam: o que te faria reduzir? Quem tem essa resposta escrita antes do dia 25 decide com mais calma no dia 26. Por fim, atenção à data destes números. Eles são de 5 de outubro, anteriores ao segundo turno, e o cenário pode ter mudado quando você estiver lendo.

Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.
Gustavo Trotta
Quem escreve
Gustavo Trotta

Assessor de investimentos e sócio da Valor Investimentos, escritório contratado da XP. Certificado CFP, atua com estratégia patrimonial e planejamento financeiro de longo prazo.

Sobre mim

O que isso muda na sua carteira

Cenário só vira decisão quando encontra um objetivo. Se quiser entender o que esta leitura significa no seu caso, me chame. A primeira conversa não tem custo e não tem apresentação de produto.

Falar comigo

Ou faça o planejamento em 6 minutos.