The Case for Brazil: The Greatest Asymmetric Bet on Earth

A tese do Brasil escrita por um alocador estrangeiro

06 de outubro de 20265 min de leituraGustavo Trotta
The Case for Brazil: The Greatest Asymmetric Bet on Earth

A tese do Brasil escrita por um alocador estrangeiro

Drew Crawford reuniu no X os números do país como potência de recursos naturais. Separo o que é dado do que é estimativa, e o que isso muda na conversa sobre carteira.

Por que eu parei nesse texto

Li a tese que Drew Crawford, sócio da Austral Continental, publicou no X sobre o Brasil, e voltei a ela várias vezes nesta semana. Não por ser elogiosa ao país. É um texto de alocador, escrito para quem decide onde colocar capital institucional, e que trata o Brasil pelo que existe fisicamente dentro das fronteiras. O que vem abaixo é leitura dos argumentos dele, com os números que ele cita. É opinião de um gestor estrangeiro com interesse comercial declarado no tema, não recomendação da Valor Investimentos nem da XP.

Terra e água aparecem antes do resto

Crawford começa pelo que é difícil de copiar. Afirma que o Brasil tem mais terra arável não utilizada do que qualquer outro país, e que daria para dobrar a área cultivada convertendo pastagem degradada no Cerrado, sem avançar sobre a Amazônia. Soma a água: por sua conta, 12% da água doce renovável do planeta está aqui, e a bacia amazônica carrega cerca de 20% de toda a água fluvial de superfície do mundo. O detalhe que ele destaca é outro. A agricultura brasileira depende principalmente de chuva, não de irrigação, o que reduziria a exposição ao estresse hídrico que já pressiona Estados Unidos e Índia.

Os números de atividade vêm depois. A agropecuária responderia por cerca de 25% do PIB e mais de 40% das exportações, com produtividade crescendo de 3% a 4% ao ano há duas décadas. Vale o aviso de sempre, e ele vale para país como vale para fundo: crescimento e rentabilidade passados não garantem resultado futuro.

Energia, e um petróleo que sai pelo Atlântico

Segundo o artigo, a energia renovável responde por cerca de 89% da geração elétrica brasileira e por cerca de 50% da oferta total de energia primária. Na comparação de emissão por megawatt-hora que ele monta, o Brasil estaria perto de 60 kg de CO2, contra 400 kg nos Estados Unidos e 650 kg na China.

E o país amplia a produção de petróleo ao mesmo tempo. Ele cita de 30 a 40 bilhões de barris de óleo equivalente nas bacias de Santos e Campos, investimento acima de US$ 100 bilhões nesta década, produção se aproximando de 4 milhões de barris por dia e emissão por barril até 70% menor que a média global. O ponto geopolítico é o que interessa ao alocador: esse óleo sai pelo Atlântico, sem passar por Hormuz nem por Suez.

Minerais críticos, e onde está o gargalo

É a parte mais forte do texto. O Brasil controlaria cerca de 90% da oferta mundial de nióbio, com mais de 80% saindo de uma única mina em Araxá, e a União Europeia importando daqui 92% do que consome. Citando o Wilson Center e dados da IEA, ele aponta o país como segundo maior detentor de reservas de níquel e de grafite, terceiro produtor de grafite e a caminho de ser o terceiro fornecedor de terras raras. Menciona ainda 14% do lítio mundial, com 11 projetos ativos em Minas Gerais, e lembra que menos da metade do território tem mapeamento geológico completo.

O contraponto ele mesmo levanta. A China concentraria 97% do refino de terras raras, 91% do processamento de grafite, 90% do manganês e 70% do níquel. Ter a rocha e processar a rocha são coisas diferentes.

O estoque de carbono

A Amazônia entra como ativo que hoje vale perto de zero nos balanços institucionais. Com o monitoramento da floresta feito pela NASA entre as referências, ele parte de 150 a 200 bilhões de toneladas de carbono armazenado. A preço de mercado voluntário, de US$ 5 a US$ 15 por tonelada, chega a algo entre US$ 1 trilhão e US$ 3 trilhões. A preço de mercado regulado, de US$ 50 a US$ 150, a conta dele vai a US$ 7,5 trilhões ou mais. É estimativa do autor, e depende de um mercado de carbono que ainda não existe nessa escala.

A perna demográfica

São 215 milhões de habitantes com PIB per capita perto de US$ 10 mil, estágio que ele compara ao da Coreia do Sul antes de décadas de crescimento. Como sinal de formalização financeira, cita fintechs brasileiras, entre elas o Nubank, com mais de 100 milhões de clientes, e a própria XP, onde eu atuo como assessor. Registro para você ler o parágrafo com o desconto devido.

O que o desconto está dizendo

Crawford não esconde os riscos. Lista burocracia, instabilidade política, corrupção estrutural, volatilidade de câmbio e gargalo de logística. O argumento dele é que esses riscos explicam o preço baixo dos ativos brasileiros, e não anulam a base física. “Instituições mudam. A física não”, escreve. A conclusão prática que ele tira é olhar menos para a bolsa já precificada e mais para o mercado de médio porte, como empresa familiar, cooperativa agrícola, concessão de infraestrutura e projeto de energia.

Como eu uso isso na conversa com cliente

Uma tese macro bem escrita não é decisão de carteira. Uso texto assim para duas coisas. Mapear a exposição que o investidor já tem sem perceber, via câmbio e via crédito privado de agro e de infraestrutura. E testar prazo e liquidez, porque boa parte do que ele descreve só se realizaria em uma década, e ativo real costuma ter janela de saída estreita. Se o assunto interessa, o passo seguinte é olhar o seu perfil e o seu horizonte antes de olhar qualquer produto. A adequação de uma classe de ativo depende disso, e se resolve caso a caso.

Este conteúdo tem caráter educacional e reflete análise de cenário no momento da publicação. Não constitui recomendação personalizada de investimento. Decisões patrimoniais devem considerar o perfil, os objetivos e o horizonte de cada investidor.
Gustavo Trotta
Quem escreve
Gustavo Trotta

Assessor de investimentos e sócio da Valor Investimentos, escritório contratado da XP. Certificado CFP, atua com estratégia patrimonial e planejamento financeiro de longo prazo.

Sobre mim

O que isso muda na sua carteira

Cenário só vira decisão quando encontra um objetivo. Se quiser entender o que esta leitura significa no seu caso, me chame. A primeira conversa não tem custo e não tem apresentação de produto.

Falar comigo

Ou faça o planejamento em 6 minutos.